8.6.17

ONTEM

Às vezes, apetece-me dizer: "Desculpa, Hoje, mas hoje não dá!"
Explicar-lhe: "Espera aí, não venhas já!
Há coisas que Ontem ainda tem para me dar.
Coisas que se tu vieres agora,
Ontem tem de levar embora.
Coisas que tu não me podes oferecer
Porque são as de Ontem ao entardecer.
Vá, Hoje, espera um bocadinho!
Não vês que ainda não fiz o caminho?
Não percebes que Ontem será sempre melhor?
Por muito que me dês, seja lá o que for?
Tem paciência, espera a tua vez.
Ontem deu-me coisas que tu não podes, nem multiplicado por dez!
Deus-me os dias no rio, os Natais, as férias e o mar
Cheios de toda a gente que tu, Hoje, nunca me sabes dar.
Desculpa, Hoje, não te quero mal.
Talvez um dia, também tu sejas especial.
Mas, por enquanto, falta-te o dom da Eternidade
Que Ontem oferece aos meus amores sem idade.
E falta-te aprender a minha saudade
Para te poder deixar chegar de verdade
É que, quando chegas, aumenta a distância
Da Felicidade que eu tinha em dias de criança.
Respeita o meu tempo, Hoje, tem paciência, tem dó.
Não te quero mal, nem te quero só.
Mas foi Ele, Hoje...
Foi Ontem quem ficou com a minha avó."


28.4.17

DORES DE MIM


Queria dizer-vos que sou normal,
Que esta coisa que tenho chorada
Que alguns apelidam de desequilibrada
Não é patologia de hospital
Não precisa de tratamento medicinal
Vem de um quarto que já não tem nada

Queria dizer-vos que não estou maluca
Que esta coisa que tenho doída
Que alguns chamam suicida
Vem de uma luz enorme que ficou pouca
De uma voz de dentro que me ficou rouca
Vem da parede do meu peito que ficou oca

Queria pedir-vos que me deixem estar
Que, talvez, desta vez, não faça mal magoar
Que esta coisa que eu tenho de dolorosa
Talvez seja, quem sabe, uma respiração piedosa
Como prescrição para um sintoma 
Como uma pomada num hematoma
Ou como o sopro calmante de anestesia
Que tinham os lábios da minha Maria
Nas minhas coisas choradas, magoadas, doídas
Sempre que me ardiam as minhas feridas.

AUTORIAS




Às vezes, fico a pensar,
Se ela estará ali
Nas linhas que eu escrevi.
Se ela estará a sorrir
Ou simplesmente a ouvir.
Ou se estará a dizer
“Eu sabia o que ias escrever!”
Não sei. Gostava de saber.
Do lado de cá, pouco sei olhar.
Mas juro que, às vezes,
Quando fico a pensar,
Sinto uma corrente de ar
- uma espécie de vento a soprar.
E a caneta que tenho na mão
De repente, sai da solidão
E escolhe palavras sozinhas
Como se elas não fossem só minhas.
Não sei. Se sou eu que, de tanto querer,
De tanto a não esquecer,
De tanto a pedir de volta,
Escrevo linhas em revolta
Com a esperança de que ela me ouça
Como quando eu era ainda moça
E lhe lia linhas que não eram as minhas
Mas que ela ouvia com esperança
Que, num dia de bonança,
Eu ganhasse a coragem de escrever
As linhas que ela sabia que eu sabia escrever.

DEVOÇÃO DE MÃO




Não eram as contas
Que essas, ela fazia de cabeça
Nem a dança da agulha
Às vezes devagarinho, 
Às vezes depressa.
Não era a linha quando fugia
Nem a malha quando caía
Era toda uma magia
Na colcha alva que nascia
Da ternura, 
De uma maternidade dupla pura
E o mimo, 
A devoção,
A peregrinação,
E os dias cristãos
Que tinham as suas mãos.

26.1.17

IMORTAL

Passou um mês.
Mas não foram essas as contas que o meu coração fez.
Disseram-me para continuar e assim tento fazer.
Estou bem. Quase serena.
Vou, obviamente, sobreviver.
Só não gosto de pensar. Não gosto do que me vem lembrar.
Que um dia, no Natal, eu não precisei mais de lhe cantar.
Prefiro esquecer.
E ficar, quase serena, nesta sala de espera.
Como se tivesse emigrado.
Como se nunca lhe tivesse cantado.
Como se o dia desse Natal nunca tivesse chegado.
Porque "imortal" é o que devia ser.
Não o imortal banal
O que se diz em poesia.
Não! O imortal literal.
Sim. Literal! Como nas contas que o meu coração fazia.

Mas, sim. Vou continuar.
Tenho roupa para lavar.
E o Mondego para recordar.
Como nas contas que o meu coração aprende agora a contar.




2.1.17

A VIDA NÃO CONTINUA



A vida não continua
Fica meia vazia, fica semi-nua
Como fica descalçada a calçada da minha rua

A vida não continua
Continua o Sol, continua a Lua
Continuam os dois com uma luz que nunca mais é também tua

Continua o caminho em frente que só para trás te apazigua
Continuam os ponteiros em eterna capicua
Continua o peso que já só levantas com grua

A vida não continua.
Continuas tu.

E esta dor que a ti se habitua.

25.7.16

DÃO DE MIM


Ah, Dão!
Quantas vezes te dizem o nome em vão!
Tão alheios, tão longe do teu milagre estão
Que te passam, sem ver, de tão cegos que são.

Perdão!
Se te esquecem os verdes que lhes vestem a pele
Se te ignoram as uvas e o seu vinho fiel.

Se não sonham que é do vento que lhes nasce uma voz
Que na montanha ecoa como um grito feroz.

Se não sabem dos teus rios, nem sequer para onde vão…
Ignorantes das águas e da sua missão

Se não sentem nos campos sangue que corre quente
E linhas nas vinhas escritas com mão de gente

Ah, Dão!

Não são só as tuas montanhas, os teus vales, os teus rios…
Não são só os teus campos que nunca abandonas vazios
Não é só o teu verde que dá cor à minha Esperança…
Nem é só o teu vento que dentro de mim dança…

É essa tua videira que me abraça uma vida inteira!
E és tu!
Terra e alma do meu avô!
Que me vestes de mim!
Que me dás quem eu sou!


1.5.16

MAIO


Este é o primeiro num mês inteiro
O primeiro dia da vida que se queria
A primeira estrada, o primeiro passo
O primeiro grito da voz do cansaço
A primeira hora dos que acordam cedo
A primeira frase que dizem sem medo
O primeiro compasso que se cansa da espera
O primeiro cravo da nossa Primavera
O primeiro verso, a primeira canção
O primeiro coro de uma convicção
Como do Sol o primeiro raio
Este é o primeiro do mês de Maio

20.4.16

EMBRULHO DE NATAL




Sou do tempo de um Natal modesto em presentes e esbanjador em cheiros quentes.
Sou do tempo dos embrulhos possíveis e dos abraços mágicos mais incríveis.
Sou do tempo das broinhas que eram só da minha avó.
Sou do tempo do rigor a cozinhar cada filhó.
Sou do tempo dos laços toscos a atar cada embrulho.
Sou do tempo da roupa-velha, do tempo do sarrabulho.
Sou do tempo encantado daqueles que já cá não estão,
E da ansieadade de os ver, de toda a excitação.
Da alegria quando chegavam

Dos sacos cheios que carregavam
Sou principalmente do tempo das saudades que eles traziam
Quase tão grandes quanto as saudades que anos depois deixaram.

Há lugares vazios na nossa mesa
Onde se senta sempre a nossa certeza
De que lugar nenhum, por mais que deserto
Cala a Alegria do tio José Alberto.
E que as gargalhadas que outrora ele fazia sempre explodir
Hão-de fazer esta noite à mesa outra geração rir.


E mesmo que a nossa avó já só fale com o olhar
Mesmo que já não se levante para nos ajudar
Mesmo que as broinhas que agora ela faz sejam com as mãos da minha irmã
E que o rigor de cada filhó seja agora o da minha mamã

Eu sei, Tenho a certeza.
Que mesmo sem palavras ela nos está a dizer:
"Que Natal feito de Amor, como o Natal deve ser!"